Muito se fala sobre o uso de drogas na adolescência e os riscos físicos e psicológicos que esse comportamento oferece. Mas não se pode dizer exatamente o mesmo a respeito do papel do álcool no universo de crianças e jovens brasileiros.
Como professora de uma universidade do Paraná, tive acesso a uma triste notícia, que me motivou a escrever este artigo. Uma colega de trabalho contou-me uma história que infelizmente parece estar sendo um fato comum para os adolescentes brasileiros.
É a história de Carlos, um garoto de 22 anos. Ele ingressou no curso de Direito aos 18 e, desde o início, demonstrou habilidade e uma vontade enorme de se enveredar na área jurídica. Durante o primeiro ano de faculdade, alcançou excelente aproveitamento, conquistando o afeto e a admiração da maioria dos professores do curso. Foi a partir do segundo ano que as coisas começaram a se complicar. Carlos e seus amigos passaram a se encontrar diariamente antes das aulas em um dos bares próximos à faculdade e, sem que percebessem, esses encontros — que no início funcionavam apenas como diversão e socialização — passaram a fazer parte de sua rotina. O que antes parecia algo natural para qualquer adolescente (beber, conversar e até passar mal no dia seguinte por ter bebido além da conta) se transformou em um hábito impossível de ser deixado, e a tolerância de Carlos à bebida foi ficando cada dia maior. Ele passou a ter de ingerir quantidades cada vez maiores de álcool para sentir as mesmas sensações prazerosas do início. Assim, enquanto seus amigos foram gradativamente deixando de comparecer aos gostosos encontros, Carlos, ao contrário, passou a necessitar daquelas doses antes e depois das aulas e, com o tempo, começaram as dificuldades. As sensações de euforia, liberdade e coragem que antes motivavam a ingestão de bebidas desapareceram, restando apenas a tristeza, a depressão e a sensação de não poder mais fazer parte do seu antigo mundo. Suas notas baixaram, ele deixou de comparecer às aulas e sua vontade de crescer e desenvolver seus projetos foi substituída por uma apatia. Hoje, três anos depois, a turma de Carlos está para se formar. Ele, porém, não vai participar da festa. Magro, abatido e com problemas no fígado, está atrasado e desmotivado.
Muitos adolescentes como você podem pensar que são jovens demais para ouvir essa história ou que nada disso poderia acontecer, já que podemos ter controle sobre nossas próprias atitudes e desejos. Mas, segundo pesquisas, o uso abusivo de álcool por crianças e adolescentes de 12 a 18 anos vem crescendo, assim como a experimentação dessa substância está acontecendo cada vez mais cedo. Hoje, estima-se que a idade usual para o primeiro “drink” é 12 anos.
O que podemos tirar dessa lição? Possivelmente, que a melhor saída para evitar fazer do álcool um inimigo é conhecer seus efeitos e os próprios limites em relação a seu uso.
O álcool é obtido a partir da fermentação ou destilação da glicose presente em cereais, raízes e frutas. Faz parte da história da humanidade e hoje se tornou a droga mais consumida. Como qualquer outra, apesar de não ser proibido, também causa dependência, já que seu consumo freqüente pode induzir à tolerância, ou seja, a quantidade necessária para produzir o efeito desejado tem de ser progressivamente aumentada.
O álcool é absorvido rapidamente na corrente sangüínea. A maior parte dele é metabolizada no fígado; e o restante, depositado no suor ou urina. A reação de cada organismo frente a determinado número de doses é diferente, pois depende de vários fatores, como a quantidade consumida, alimentação no momento da ingestão, idade, sexo e padrão anterior de uso.
A maioria das pessoas costuma acreditar que o álcool é um estimulante, já que bebemos para nos desinibir, ficar alegres e falar mais. Mas, na realidade, ele é um depressor do sistema nervoso central, afetando o julgamento, o nível de consciência, o autocontrole e a coordenação motora. Possui ação negativa em diversos órgãos, sendo as mais freqüentes gastrites, úlceras, hepatite, cirrose, diminuição da força muscular das pernas, doenças do coração e derrame.
O importante é pensar que o álcool é uma substância capaz de nos proporcionar bem-estar e alegria, mas deve ser utilizado com consciência e responsabilidade. Ao contrário de Carlos, que não percebeu os riscos que corria, cada um de nós deve ficar atento para os próprios limites e, assim, continuar a viver da forma mais completa possível.
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